Ruminando

Na sala de professores da Faculdade de Educação da Universidade do Estado de Santa Catarina – UDESC

O projeto Filocinema – um olhar sobre a Grécia Antiga começou um ano após minha admissão, em abril de 2002, como professora de disciplinas de Filosofia para estudantes de Biblioteconomia, Geografia, História e Pedagogia da Faculdade de Educação da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). Eu vivia em Florianópolis desde 1995 e nesta cidade redigi meus trabalhos de mestrado (em Filosofia, na USP), sobre Górgias, e de doutorado (em Letras Clássicas, na USP, com estágio na Brown University), sobre Eurípides. O trânsito nessas duas áreas, associado a graduações em Matemática e em Filosofia (na UnB), com uma monografia sobre Galileu, reforçou interesses interdisciplinares e facilitou o ensino para um público heterogêneo. Naquele 2002, viajei para um congresso na Tasmânia, Drama on the Edge, organizado pela Australasian Drama Studies Association (ADSA), em Launceston. Minha comunicação, intitulada Dionysus in Brazil: the myth of bull in popular theatre in Florianópolis, tratava da denominada (a partir de certo momento) “farra do boi”, prática de origem açoriana que fora condenada, a princípio, não por motivos ecológicos, mas porque “destruía a propriedade privada”. Sobre o assunto já havia sido publicada uma coletânea, com artigos de vários estudiosos, entre eles, Ordep Serra, Dioniso em Santa Catarina, alusão ao livro Dioniso em Creta, de Eudoro de Souza (com quem, aliás, convivi em Brasília). Minha pesquisa trazia algo novo por se apoiar em dois documentários e em uma tese recentes sobre a polêmica tradição.

Entre São Paulo e Sydney, fiz uma escala de dias em Joanesburgo. Apesar de breve, a experiência africana foi marcante, a começar por estar na cidade onde Mandela viveu, e lembrar do episódio de sua vida, quando preso, inicialmente em Robben Island: ter representado Creonte em uma encenação da Antígona. Em um tour contratado no hotel, a caminho do recém-inaugurado Hector Pieterson Museum, memorial localizado em Soweto em homenagem a Hector, que foi tragicamente baleado e morto — ah…os corpos dos heitores — em 1976, e cuja imagem se transformou no símbolo da luta contra o Apartheid, vi, passando por áreas periféricas, ovelhas à venda para serem sacrificadas. Depois, surpreendeu-me o contraste entre prédios moderníssimos, um deles, em forma de diamante lapidado, ao lado de pobres lojas com produtos para curandeiros e feiticeiros (e vendedores simpáticos que me perguntavam sobre Ronaldinho). Neste momento, excertos de Made in África, de Câmara Cascudo, e cenas de Appunti per un’Orestiade africana, de Pasolini (ainda que filmadas mais ao Norte, na África Central), me vieram à cabeça, bem como as críticas de Platão aos poetas, retores e sofistas, no livro II da República, associando suas práticas à magia (mageia) e enfeitiçamento (goeteia), para produzir apate (salve-me, Górgias!), bem como a ressignificação, no Fedro, da necromancia (psicagogia) que Ésquilo havia encenado n´Os Persas. Mundos muito distantes um do outro começaram a dialogar In and Out of the Mind e eu me sentia, como Cascudo, reconsiderando, via África/Austrália, as outras tradições nas quais fora formada.

Cultural Rubble – entrada do Ian Potter Museum of Art – University of Melbourne

Já em Melbourne, onde minha irmã mais nova, Brígida Miranda, fazia um doutorado em teatro, sobre história do treinamento de ator, fui introduzida nos dilemas sobre os processos de aculturação dos aborígenes — o que já começara, na verdade, na estadia em Sydney, com Olaia Mello, amiga anfitriã, emigrante lá, depois de 10 anos na Europa. Coincidentemente, ali, ouvi famosos especialistas em Eurípides (muitos citados em minha bibliografia de tese), pois estava acontecendo, na Universidade de Sydney, a International Conference Drama III in Honour of Kevin Lee. Entre as duas grandes cidades, fui percebendo como a recepção da tradição, tema que já me interessava, em particular no cinema, ia se tornando complexa e desafiadora. A imagem (foto) na parede do Museu da Universidade de Melbourne, Cultural Rubble, era uma imagem perfeita dessa desconstrução da tradição clássica, em um país também colonizado, no qual, mesmo que existissem bons museus com belos exemplares de vasos gregos e outros artefatos originais, as cópias de obras de arte famosas da cultura grega, o “rubble”, eram um convite para outro olhar sobre a Grécia.

Farra do Boi em Desterro, Dioniso de uma ilha a outra – Drama on the Edge/ADSA Conference, Launceston, Tasmânia

Fiquei surpresa com a recepção de meu paper (ampliado e publicado posteriormente – veja, no item êxodo, COELHO e GORSKI, 2007), centrado no conflito de dois universos já irreconciliáveis após o processo de urbanização da Ilha de Santa Catarina, texto intercalado com cenas dos documentários Bois em Farra (Zeca Pires, Fundação Catarinense de Cultura1997), Farra do Boi (Zeca Pires e Norberto Depizzolatti, Fundação Catarinense de Cultura1991) e O dia em que o boi veio jantar (Fernanda Lago et al., APRIKA, 1998).  O impacto das imagens, e também de cenas do antológico Boi Aruá (de Chico Liberato, UFBA, 1983, com melodia de Elomar), aguçou meu interesse em ampliar as experiências com cinema e produção de emoções. Por outro lado, Homo Necans, de Walter Burkert, de quem fui aluna na disciplina intensiva Ritual na Poesia Grega, na USP, e Homo Ludens, de Johan Huizinga, dialogavam na minha cabeça. Eu já estava ruminando, com meus bois e botões, os projetos para o ano seguinte.

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